domingo, 16 de agosto de 2020

A Garota Insaciável




























Passava dos noventa quilômetros na rodovia com meu Chevelle 71. A estrada era um verdadeiro tapete dos sonhos. Uma reta sem fim.
Aquela estrada me dava sossego, paz, contentamento. Meu Chevelle 71 agradecia, pois não precisaria ter que aturar aqueles buracos, quebra molas do meu bairro. Ali, na estrada sem fim, poderia usufruir de seu potencial.
Vidros abertos, o vento sem controle em meu cabelo, o som nas alturas, dia de sol, duas da tarde de uma quarta feira.
Pensava na Thiffany. Havia deixado somente um bilhetinho na mesa. “Fui ver meu editor, volto em algumas horas”.
Sherman estava de férias com a família em outra cidade e me pediu que fosse mais que depressa fechar um contrato com uma grande revista.
Há anos trabalhamos juntos, foi o editor que confiou em mim. O conheci em um bar. Estávamos bêbados devido ao jogo da final, ele me perguntou o que eu fazia, “sou escritor”, ele respondeu “não acredito, trabalho com isso”.
E daí nasceu uma grande parceria.
Tenho que fazer a barba, olha isso. Repreendia-me enquanto me encarava no retrovisor.
Preciso perder peso. Sinto tonturas quando abaixo.
Sinto cansaço.
Quanto será que vou receber por este...
De repente, uma buzina altíssima me assustou de verdade.
Uma senhora de cabelos brancos e com um carro mais velho do que o meu, ultrapassando-me enquanto seus olhos seguiam os meus. 
Seu carro seguia adiante. Foi engraçado. 
Estava devagar em relação à estrada. Continuei na faixa da direita, porém coloquei atenção redobrada.
Viajar faz isso com você. Você se perde em seus pensamentos. Tranquilo, sem pressa, pensando na vida. 
Às vezes pegar o carro e sair sem rumo é a melhor coisa de se fazer. 
A fome e o cansaço começaram a bater após horas de direção. Placas da estrada sinalizava um restaurante alguns quilômetros adiante. 
Dava muito a calhar.
Dei seta, conduzi até uma estrada de terra que fazia parte do estacionamento amplo do Burguer's Park e procurei até encontrar uma vaga do lado de um coqueiro.
Entrei, aquele ar frio, novo e puro me invadiu fazendo-me relaxar. Tirei os óculos de sol, analisei o local. Estava vazio por ser aquele horário. Resolvi sentar em umas das mesas do fundo, ao lado da janela.
Uma garota começou a se aproximar, a garçonete com um bloquinho nas mãos.
Uma graça, uma bela mulher. Vestido rosa, cabelos presos na nuca, loira, magra, alta, olhos azuis vivos, seios fartos.
- Bom tarde, o que vai querer?
-Olá, boa tarde. - Apertei os olhos para tentar ler seu nome na plaquinha abotoado no bolso da frente do uniforme.
-Bety.
-Olá Bety, Jonas.
Ambos sorrimos.
-Me vê um café e croissant.
-Café com creme?
-Sim.
- Algo mais?
“Peça o telefone, o telefone” pensei.
-Não.
-Um momento - Disse levando o cardápio
E lá se foi uma mulher de fibra. Fiquei a observar ela desaparecer para dentro de uma porta, talvez fosse à cozinha. E não tive coragem de pedir seu telefone. Essas coisas não se hesitam Jonas, só vai e faz. Confiança.
Enquanto aguardava, mexia no saleiro, no açúcar, analisava a validade dos temperos que ficavam em um cestinho de vime ao lado dos guardanapos, dava tapinhas na mesa enquanto olhava em volta como se quisesse achar algo.
Meu pedido estava chegando
-Que rápido.
-Estarmos tranquilos hoje.
-Quanto tempo trabalha aqui Bety?
- Uns oito meses.
- Está gostando?
-Sim. Porém, não sou daqui.
-De onde é?
-Do interior.
-Que ótimo. Gosto do interior. Cidade pequena é ótima para se viver.
Ela riu.
Bety foi tratar de outra mesa, pois havia um cliente chamando-a a um tempo.
Fitei enquanto ela em pé anotava o pedido do cliente e dei uma golada no café. Estava horrível. Afastei da boca, fiz cara de desaprovação e coloquei um pouco mais de açúcar, mexi. Provei, estava a mesma merda. Bebível. 
“Você que fez esse café asqueroso, mocinha?” Pensei enquanto observava o recinto. 
Bety devia ser aquela caipira que o pai lhe ensina o que é certo e errado, vai a igreja todos os domingos, se família, compra sapatos rasteirinhos para ir ao baile e segura de forma errada uma taça de champagne em uma festa de requinte só para mostrar que conhece a coisa. Deve chegar antes das dez da noite depois de um encontro.
Meu lanche já havia terminado. Levantei a mão solicitando a conta.
Bety a trouxe após alguns minutos. 
Toquei sua mão. Ela percebeu.
-Toma aqui.
Dei uma gorjeta a ela.
-Nossa não precisa senhor.
-Aceite, você merece.
-Obrigado senhor.
Ela riu.
Agradeci e dei uma piscadinha.
Levantei, paguei e com um sorriso no rosto me encaminhei até a saída.
Virei-me, mas não a encontrava mais entre os clientes.
Palitando os dentes entrei em meu Chevelle 71 e segui viagem.
Dia seguinte voltei ao restaurante para tomar aquele café horrível mais uma vez e pedir seu telefone, quem sabe flertar.
Soube que ela tinha pedido as contas e voltado a sua terra natal para cuidar do pai.
Voltei para o carro e segui viagem.
Fiquei indignado comigo mesmo. Puto da vida. 
- Nunca perca uma chance Jonas. NUNCA! - Gritava comigo mesmo - Chance perdida, experiência não vivida, Jonas!!
Tadinha da Bety, nunca mais a verei. 
Espero que ela consiga lidar com as adversidades da cidade grande e dos mal-intencionados...



Esfíncter Afrouxado





Baseado em fatos reais

 
Sábado
Chegamos a Campos de Jordão com minha namorada e toda a família. Sábado pela manhã. Dia gostoso céu sem nuvens. O dia que planejei.
Inspiro de prazer enquanto a cidade está em nossa frente para ser explorada.
Fomos visitar lugares importantes da cidade e experimentar os quitutes das feirinhas da praça central e fazer algumas compras.
A hospitalidade é ótima. A cidade era limpa e muito agradável.
Nosso almoço foi acolhedor. Escolhemos o melhor restaurante da cidade para visitar. 
Abusei na carne vermelha e bebi muita cerveja. Minha namorada até dizia, "manera aí", eu estava com as rédeas da situação. Era meu dia!
Após o almoço e começo da tarde, visitamos um parque e o museu da cidade. 
No fim do passeio, eu estava exausto.
O dia estava muito quente e talvez fosse por causa disso que meu domingo foi aterrorizador, porém, não só para mim.

Domingo
Minha namorada e eu, fomos almoçar em outro restaurante da cidade. Comida mineira, churrasco e sobremesa. O local era rústico.
Ela pediu nhoque e eu, logo após comer quase um quilo de comida, ataquei os chocolates. Todos eles. Branco, meio amargo com recheio, ao leite, eram chocolates feitos na própria cidade.
Comi chocolate até sair pelas orelhas.

Às sete da noite, voltamos para o hotel.
Despedimo-nos, pois estava num quarto com meus pais e ela em outro. 
fui dormir, porque dia seguinte iríamos voltar cedo.
Por volta da meia noite, me levantei, pois ainda sentia dores estomacais, "acho que foi a carne" pensei.
Fui até o banheiro para tentar me aliviar. Sentei no vaso e esperei. 
Mas foi aí que me dei mal. Depois de fazer muita força comecei a ficar tonto zonzo, tentei levantar e tudo ficou escuro. Desmaiei. Tombei para o lado. 
Com o barulho alto no meio da noite, meu pai e irmão correram para o banheiro e ambos gritavam pelo corredor.
"Ele desmaiou"!
"Ele desmaiou"!
Eu estava pelado.
Meu pai tentou me levantar  e levar-me para o quarto, porém como eu estava desmaiado e fraco, e sem nenhum controle muscular, meu esfíncter afrouxou e então que a merda começou a sair. Me caguei todo. Enquanto meu pai me puxava, a merda o sujava também.
Eu desmaiado e defecando entre minhas pernas e sujando todo o azulejo.
- Caralho pisei na merda!!! - Meu irmão gritou.
- Vai, puxa ele - Meu pai gritava ao me arrastar pelo corredor. - Vai, puxa!
Minha mãe gritava. - "Levanta ele!"  "LEVANTA ELE!!"
-Porra, meu pé tá cheio de merda!! - Meu irmão continuava a gritar.
-Vá, pegue o roupão dele, rápido!! - Meu pai gritou.
-Tá...mas tá cheio de merda! - meu irmão retrucou.
-Pegue-o assim mesmo, rápido!!

Minutos depois acordei. Estava deitado na cama vestindo meu roupão. Não me lembro de como fui parar ali. Levantei um pouco a cabeça para entender, pois todos estavam acordados.
O cheiro de merda estava por toda parte, e eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. 

Pisquei algumas vezes e vi meu pai correndo pela casa de um lado a outro. Minha mãe passava um pano no chão com auxílio de um rodo, e meu irmão, gritava lá do banheiro.
"Ahhh, o cheiro não tá saindo, cassete!"

Voltei a dormir.
 
Dia seguinte, me contaram em detalhes o que havia acontecido.
Voltamos todos para casa.
Alguns com memórias desastrosas, e eu, no entanto, feliz e sem dores estomacais. 


**Nota do autor
Uma boa história de humor para quem o ler, mas algo terrivelmente desastroso para quem o viveu.
Por motivos óbvios e contra a imoralidade alheia, o autor, escolheu por preservar a identidade da pessoa e zelar por sua desonrada situação que veio a passar.

A Mancha de Mostarda

















-Maldita mostarda! - Exclamei.

Depois de esperar um bom tempo pelo meu hambúrguer duplo na praça de alimentação do shopping do bairro, quase que o molho amarelo derramou em minha calça social e camisa. O lanche estava encharcado dele. Estava faminto.

Minutos depois, sentou próximo a mim uma senhora de uns quarenta e sete anos, noventa quilos com um vestido largo florido. Seu cabelo era encaracolado, cheio, tingido de um vermelho bordô. 
Nas cadeiras em volta da mesa, soltou duas bolsas de mão e duas sacolas de loja de brinquedos.
Pegou seu celular e começou a ler uma mensagem. Lia mexendo os lábios e fazia uns barulhos com a boca. Impossível não se incomodar com aquilo.

Havia poucas pessoas na praça de alimentação, talvez por ser quatro horas da tarde, e somente desocupados ou quem faz o trabalho noturno estariam ali. Eu fazia parte da primeira opção. O ambiente estava vazio.

O engraçado foi observar como ela falava sozinha enquanto esperava seu pedido. E fazia mechas no cabelo com seu dedo indicador. Olhava pra cá, olhava pra lá.

Curiosamente ela pediu o mesmo pedido que o meu.

Após o garçom chegar e colocar a bandeja na mesa, ela sorriu para o lanche com alegria e excitação, enquanto passava a língua entre os lábios.
Deu uma mordida com tanta vontade que fez escorrer a mesma pasta amarela em seu vestido onde ficou com uma mancha amarelada próximo ao peito.
Passou o dedo indicador por cima e o chupou. Nessa hora, percebeu que eu a fitava. Disfarcei o olhar, porém ela percebeu.
Enfiei a cara em meu lanche, como se quisesse encostar a testa na mesa.

Ainda me observava.

O garçom foi chamado por ela, escreveu algo em um pedaço de papel, e apontando disfarçadamente para mim, pediu que ele me entregasse.

Eu de cabeça baixa continuava a comer como se nada tivesse acontecido.

O garçom veio até mim com cuidado e pedindo licença, disse:
-Aquela madame pediu que lhe entregasse este papel, senhor.
-Olá... Obrigado. - agradeci.
Abri o papel e estava escrito.
"Olá, sou Mary. Sou aquela que você pode se dar bem esta noite. Venha aqui, senta comigo".
- Sou gay - murmurei movendo os lábios.
Ri sem jeito, levantei devagar, e dei o fora o mais rápido possível.


Lucy, A Mulher Certa para Minha Vida



























Lucy.
A mulher certa pra mim. Com certeza. 
Sinto isso com todas as minhas forças. 

Ela é inteligente, bonita, interessante e com ótimos genes para reprodução. Quando em seu aniversário a presenteei com bombons e flores ao mostrar detrás de minhas costas e gritar "SURPRESA", sua reação foi de absoluta surpresa e felicidade. 

Logo depois da euforia, um belo sorriso.
Sua caixa de correio por diversas vezes se encontrava com cartas assinadas por mim, caracterizadas com adesivos, desenhos engraçados e mensagens expressando todo meu amor. 

Ela as respondia com certa freqüência fazendo minha ansiedade correr ainda mais quando as abria e lia. Quando vamos ao parque, caminhamos, pedalamos, sentimos a natureza, nos divertimos. 

Sorrimos quando passeamos pela orla do lago ou quando paramos para um piquenique. 
Conversamos sobre qualquer assunto. 
Nossa conversa flui e nós nos respeitamos.  
Isso é difícil de encontrar. Um cúmplice das mesmas intimidades, um guardião de nossos segredos, uma pessoa com quem possamos confiar e principalmente, quando nos tornamos melhores somente por sua presença.
Lucy, como eu te amo.

Venha, Dona Morte















Quero dar um recadinho para a dona morte antes que ela venha me visitar.
Posso estar prestes a abaixar as calças para urinar, ajoelhar ao amarrar os sapatos, caminhar sonolento de madrugada até o banheiro ou engasgar com um osso de galinha em um pleno almoço de domingo de sol em família e ela vir me dar um tapinha nas costas.

Ela é um convidado não-desejado.
Um mendigo na ceia dos ricos.
Um hipócrita em uma reunião de bachareis.
Um ateu na escola de cristo.

Essa criança, um dia, também chegará a minha idade. Um dia ela também estará na merda. E quando este dia chegar, estarei abaixo de seus pés, não poderei rir por estar muito rígido. Ela caminhará sobre mim.
Eu poderia ficar triste talvez, pelo meu fim....fim triste, deprimente e patético, mas como não sairei vivo dessa, eu não me importo com o amanhã. Muito menos com o ontem.
A merda que fiz ontem, já foi levada pelos canos do esquecimento, o que farei amanhã, estou pouco preocupado.
Ficarei aqui, a saborear meu mais suculento banquete, e aproveitar cada momento que irei desfrutar, antes que eu engasgue com algum osso de galinha que possa entalar em meu esôfago, impedindo a passagem de ar, fazendo com que eu me desespere em busca de ar. Algo que você não dá a mínima antes que começar a perdê-lo.
Mas é isso.
Minha bança está cheia, e dou mais um gole em meu Jack com prazer.
Venha Dona Morte, venha. Quer me ferrar?
Vamos nos ferrar juntos.

Venha Dona Morte, venha. Em sua capa negra e foice amolada.
Venha me visitar entre uma golada e outra.
Em uma gozada informal sem importância.
Em uma manhã de um dia nublado tedioso.
Venha me tocar de perto...sentirá meu mau hálito fedorento e minha apatia...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Hanseníase (Parte 3)















Após voltar da cozinha, segurava o copo com dois dedos, assoprando-o diversas vezes. Estava escaldante.
- Quais suas memórias daquele tempo, Jonas. - Nel perguntou.
- São tantas. - Respondi olhando para o nada, como se as lembranças fossem postas em minha mente uma atrás da outra.
Mas não me lembrava de quase nada.
Ficamos em silêncio por um momento até que foi quebrado por mim.
- Lembra-se do soneca, manco-véio, filho do rei?
Nel começou a rir. Eram ótimas recordações de anos dourados.
- O soneca... - continuei. - Sempre estava com cara de nada. Gostaria de compreender como nos dias de hoje, com todo o stress e ansiedade da vida diária, ele se mostrava despreocupado quase dormindo nas colunas. O tosco e desprezível manco-véio.... sem comentários.

o silêncio se fez novamente

- Indo muito à praia, Jonas? - Nel sorriu.
- Lembra-se quando me perguntou ontem se eu estava tomando sol?
- Claro.
- Sol nenhum. - Respondi com insatisfação. Peguei isso do João da Mercearia. Se chama Hanseníase.
- O que é isso?
- Manchas vermelhas pela pele. Coçam. Há dormência na região, caroços.
-  Meu Deus. Mas espere, João da rua Gaspar?
- Exato. Fui lá e conversamos por um bom tempo. Até estranhei por ele se coçar muito também. Dia seguinte começou essa merda em minha mão.
- Ah, conheço ele. - Nel disse. - Fui à mercearia dele algumas vezes. Um cara digno, super honesto.
- Com certeza. - Concordei. - Semana passada esteve fechado a semana inteira. Ferias na praia.
- Praia? Estranho. Me informaram que ele havia ido a um velório. - Nel questionou.
- Ele tem um filho. - Continuei.
- Sim, o conheci de vista. Um belo dentista.
- Não, ele trabalha numa boate como segurança, Nel.
- Ele namora uma bela garota. Ela é engenheira.
- Não Nel, ela está desempregada.

Um cara super honesto.

(Nos entreolhamos e mudamos de assunto)

Nel fitou de relance seu relógio e disse que teria de ir embora.
Eram quase cinco e meia.

Ao levantarmos, fios de cabelo que se desprenderam do restante, descansavam em seu rosto de frente a seu olho.
Com um movimento de uma das mãos, o recolocou no lugar.

Nos abraçamos três vezes como o habitual e nos encaminhamos até a porta.
A abri, ela rangeu.
Neste momento, Thiffany retornava com Boris.
Apresentei ambos. Boris, um beagle, o cheirava e balançava o rabinho.
Nos despedimos e o observei descer as escadas, já que o elevador estava quebrado.
Toda aquela aura âmbar permanecia com ele.
E sempre o acompanharia aonde fosse.


Dedicado à João da rua Gaspar

Quem diabos é Mercedes McCambridge? (Parte 2)















Minhas costas estavam queimando.
Virei pro outro lado da cama, aspirei fortemente e abri um dos olhos. A claridade se mostrava no quarto inteiro.
Funguei e me repreendi por ter esquecido de fechar a cortina.
O relógio do criado mudo mostrava uma e cinco.
Leonel chegaria as três.
Dá tempo para cochilar um pouco mais, pensei.
Duas e meia levantei.
Escovei os dentes, passei uma água no cabelo, penteei para trás e dei um sorriso forçado para o espelho para checar se estava tudo bem.
Vesti a mesma camisa de ontem, e uma calça de moletom preta pois estava com frio. Meias brancas também. O chinelo de dedo estava seco.
Para aguardá-lo, peguei uma cerveja, liguei a TV e sentei na ponta do sofá da sala. Passava o jogo.
Dei um golada, enruguei o rosto. Estava muito gelada.
A dor de garganta voltou a atacar.
A campanhia tocou as três e três. Olhei pelo olho mágico. Era ele.
- Vamos entrando. - Disse com os braços abertos.
- Olá Jonas, como está? - Leonel disse ao me dar um abraço fraterno triplo.
- Tudo bem. - Respondi. - Vamos entrando. Não repare a bagunça.

A parede próxima à janela, descascava devido a uma infiltração que eu postergava em consertar. A mancha verde musgo denunciava meu descuido.
No raque marrom escuro da TV, havia pó suficiente para desenhar com o dedo, um rosto grande e feliz ou simplesmente para testemunhar a cor discrepante que haveria entre ambas.
Havia dois quadros na parede, mas estavam tortos e um estava amarrado por arame.
O meio do sofá estava meio molhado. Havia derramado cerveja pois costumo apoiar ali quando assisto TV ao almoçar. Fora que Boris já usou como privada. Mas isso, Nel não precisava saber.
Ao olhar para o lustre, das três lâmpadas, somente uma acessa, podia se ver uma aranha descendo por sua teia.
A TV era de tubo e havia duas palhas de aço em uma das antenas.
Na sala, pedi que se sentasse na ponta do sofá. À sua frente, havia uma mesinha com latas vazias, papéis com anotações, uma bandeja e um cinzeiro imundo com partes de cigarros amassados.

- E as novidades? Perguntei indo para a cozinha.

Por diversas vezes, Thiffany me alertava que a casa cheirava tabaco, cerveja vencida, suor, além de mofo. Que eu teria de limpar a casa e desodorizar o ambiente e blá, blá, blá. Que algum dia, algum amigo ou visita viria aqui, e testemunharia o relaxo e não seria legal. Mas sabe como é, acostumamos com o cheiro quando estamos imersos nele. Agora já era tarde.

- Bem, acabei de vir de uma consulta. - Nel respondeu com firmeza.
- É mesmo? Como assim? - Minha voz distante perguntava da cozinha misturada com os barulhos vindo de lá.

- Sim. - Ele continuou. - Me formei em psicologia com mestrado em psicanálise com todas as honras. Tenho um paciente, chamado Machado. Ele possui Transtorno Obsessivo Compulsivo, tem inseguranças e desejos de se autoafirmar, além de não contribuir satisfatoriamente com suas idéias em prol do bem comum.

Voltei com duas latas, um saco de amendoim em uma mão, e uma cadeira de praia em outra.
- Trouxe uma cerveja pra você Nel. - Estendendo a lata para ele.
Coloquei minha lata na mesinha, o amendoim na bandeja e abri a cadeira no meio da sala, questionando-o.
- Que caso foi esse?
- Um paciente que tenho. Chamado Machado. É um andante.
- Andante? - Perguntei abrindo o lacre da lata.
- Sim. Ele consulta comigo há um bom tempo. Veio de outro estado. Usou caronas, dinheiro emprestado, ajuda de amigos, muitas vezes, teve que caminhar até seu destino. Por isso andante. Um apelido amigável que ajuda em sua terapia.
- E o que você quis dizer com auto afirmar, contribuir satis....satis.... - Perguntei com travas na língua.
- S a t i s f a t o r i a m e n t e. - Me corrigiu com ênfase didática fazendo cara de desaprovação da minha falta de saber me expressar corretamente.
- Isso!
- Bem, o caso dele... - Nel ao cruzar uma perna sobre outra e afundar os óculos com o dedo indicador continuou. - ...O conceito por trás de toda limitação psicológica advém de contradições estruturais profundamente danificadas linguisticamente e armazenadas na falta de recursos, criados na infância ou por um trauma muito grande que a pessoa experienciou...
- Isso é algo da educação né? Com certeza. - Expus por cima de sua explicação.
- Bem, não. A personalidade, desejos e sua vida psíquica sofre insatisfações, fantasias, problemas em lidar com a realidade, falta de senso atemporal ou espacial, que no conjunto compulsivo, irracional...
- Você acha que isso...
- Posso continuar? - Nel interrompeu-me.

Fitava-me sério, e piscava diversas vezes entre os segundos.

- Sim, claro. - Disse ao movimentar a mão em movimentos circulares como se cedesse licença.
- De imediato, se faz presente tais sintomas inconscientes. Que tem a função importantíssima na estabilização da vida consciente.
Eu o ouvia como nos velhos tempos e o instigava.
- Mas isso pode ter cura? - Perguntava admirado com um punhado de amendoim na mão.
- De fato, o comportamento irracional inconsciente guia o comportamento consciente. A supervalorização representativa dos valores da sociedade, o esforço em criar harmonização da realidade, repressão e ocultação das fraquezas, cria-se a característica de retardar inicialmente uma melhora no quadro do paciente.
- Entendo.
Sua oratória, didática eram ótimas. Ele continuava.
- Meu paciente Machado, procura um comportamento que seja aceitável em seu dia a dia. Mesmo que sua performance social seja danificada com seus trejeitos falhos e dirigidos a salientar sua aceitação no grupo. Suas idéias não são usadas em seu trabalho, por serem não praticáveis. Idéias estúpidas, bizarras. Mesmo ele se convencendo de que seus impulsos são satisfatórios. Ele se frustra, e é onde ele querendo conquistar o afeto do público ouvinte, se faz das suas piadas sem graça uma arma para si mesmo.
- Uhum. - Eu escutava com a coluna curvada na cadeira com o rosto descansado em uma das mãos.
- Além disso, a psicanálise explica que...
Enquanto Nel relatava o caso, percebi que meus olhos começavam a pesar. Relutava em me manter acordado. Iam fechando e fechando. Me endireitava na cadeira e remexia a língua dentro da boca para despertar. Dei um tranco pra trás e pisquei diversas vezes, para voltar a me concentrar. Outras vezes trocava a posição das pernas, outras, comia mais amendoim.
- Dependendo do sintoma, podemos...
- Ei Nel. - O cortei abruptamente.
- Ainda não terminei, você pode me deixar concluir meu raciocínio? - Nel questionou levantando seu braço em minha direção como se quisesse me parar.
- Não, cansei. - Respondi com um sorriso no rosto. Esse seu andante é um caso perdido, esqueça-o.
Ele riu.
- Mas me diga. - Continuei. - Como se chamava a loirinha que aparecia nas suas aulas pela manhã?
- Loirinha? - Nel franziu o rosto pela interrupção de suas idéias mas fez força para lembrar.
- Isso. Como chamava mesmo aquela gatinha com a voz da Mercedes McCambridge?
- Quem diabos é Mercedes McCambridge? - Perguntou atônito.
- A atriz que dublou o diabo encarnado na Linda Blair em o Exorcista.
Ele riu e entendeu o que eu quis dizer.

A loirinha era linda, maravilhosa e baixinha, mas sua voz era grave, meio rouca e amedrontava as vezes. Um belo contraste.  Porem, de forma alguma perderia pontos.
- Não tive mais contato. Infelizmente.- Respondeu.

Um silêncio se fez.

- Vou buscar mais café, Nel. - Disse ao levantar repentinamente jogando o controle da TV para Nel.
Mas ninguém ali estava bebendo café.
Fui até a cozinha e dei alguns tapas em meu rosto para acordar.


Dedicado à loirinha da voz grossa

Entre Poças e Sacolas (Parte 1)






Ao atravessar a rua depois de ir a padaria comprar pães, leite e cigarros, continuo a caminhar pela calçada da avenida principal até meu apartamento. Passava das quatro da tarde.

Dia nublado e chuva fina. Setembro sempre é assim.
Depois de um tempo caminhando nessa chuvinha, você percebe como ela molha bem. Porém, não adiantaria trazer meu guarda-chuva, pois ele só abre do lado invertido. Nele, faltam reparos. Não vou comprar outro.
Estou com uma camisa manga curta de linho branca com linhas azuis verticais, algumas manchas de respingos de café, short marrom e chinelos de dedo.
Estou com calor. Talvez seja pela pressão alta, não sei, já acostumei. Respirar de forma contínua e brusca, fora os arrepios momentâneos e as crises, fazem parte da vida do velho Green aqui.
Já se vão setenta cinco anos bem mal vividos.
Coloquei o maço no bolso da camisa.

Ando despretensiosamente fitando meus pés. Um atrás do outro. Estou no automático.
Penso na vida e em nada ao mesmo tempo. Coisas que fiz. Desejos não realizados que retornam em minha mente, pessoas que sinto desprezo são visualizadas na tela mental para receberem uma boa resposta desde aquele dia, pensamentos que vem e vão em uma continuidade sem fim.
Pigarreio e cuspo no chão.

Meu braço começa a doer por segurar a sacola com as compras. Estou velho e fora de forma.
Me tornei sedentário há muito tempo. As dores acompanham meu joelho quase que diariamente. Preciso visitar o dentista e arrancar o siso que está me matando.
Sem perceber, piso em poças na calçada mal planejada, que me fazem mandar um "puta que pariu", instantaneamente. Começo a xingar os políticos, reclamar da cidade, do tempo de merda.
Deixei meus óculos na cômoda. Pra quê? Não preciso.

A rotina sem gosto e deprimente é escrachada na minha cara. Vejo pessoas passarem por mim. Outras esbarram pela pressa da corrida dos ratos para vencerem na vida. Eu as xingo em pensamento.
Outras atravessam a avenida correndo. Carros buzinam pela demora de uma van não passar o sinal amarelo.
A chuva continua e meus pés molhados começam a grudar em meus chinelos, fazendo barulhos estranhos a cada passo.

Vindo em minha direção, reconheço um rosto que há tempos não o via.
Fui fechando os olhos numa possibilidade de focar melhor. Sem sucesso. Mas era ele mesmo.
Seu nome era Leonel. Meu ex-professor de ginástica. Quando treinava na academia há quarenta anos.
Um cara todo arrumadinho. Todo coerente em suas idéias. Um cara sem bolinhas de cobertor nas blusas de lã. Um homem sem a constante visita da dúvida.
Ao fazermos contato visual, ele também me reconheceu e abriu um sorriso.
Era alguém que valia a pena parar, diferente daquelas que você finge não ver para não cumprimentá-las.
- Mas olha, quem está aqui. - Eu disse.
Nos abraçamos ali mesmo, naquela calçada cheia de poças com pessoas passando de lá pra cá.
Um abraço, alternando os lados, três vezes. Como fazíamos nos bons tempos.

Haviam pequenas gotas nas lentes de seus óculos. Óculos de armação retangular de cor preta. Continuava com sua barba farta, em formato "V", porém agora, branca. O relógio preto grande que media até os batimentos cardíacos descansava em seu pulso esquerdo. A correntinha no pulso direito. Seu cabelo penteado para trás seguindo o formato do crânio era repartido com rigoroso cuidado do lado direito, estilo fade ou degradê desde o pezinho.
Com um topete alto devido ao gel, a testa brilhava.
A calça jeans azul escura, sapatos pretos de bico fino e uma blusa de gola alta, constava novamente, que ao redor dele, toda aquela aura cor âmbar reluzia o ambiente.
Ele me puxou pelo braço para sairmos da circulação das pessoas e assim, conversarmos.

- Como você está Jonas? - perguntou dando tapinhas em meu ombro.
- Estou ótimo Nel. - Respondi com um sorriso no rosto mas já com as sacolas no chão.
- O que tem feito? - Ele perguntou ansioso.
- Bem, fui a venda. - Mostrei à ele as sacolas. E você? - Perguntei rapidamente para que ele não percebesse que minha maior aventura nos dias atuais eram comprar cigarros.
- Bem. Meu aniversário de setenta anos foi há alguns dias e como estou de férias do consultório, estou na casa de amigos.
- Meus parabéns. - Toquei em seu braço e senti que ele ainda praticava exercícios devido ao volume abaixo da blusa. - Onde está morando? - Perguntei.
- Ah, do outro lado da cidade. Os netos estão consumindo minha energia. - Respondeu com alegria.
Lógico, ele não moraria neste bairro de merda, pensei.
- Mas e você? - Ele insistiu. - E a família? Está sem óculos...para um vovô de quanto?
- Setenta e cinco. - Respondi.
Mal sabia ele que não enxergava nada. Não havia operado da catarata e tropicava todas as noites nas quinas quando me encaminhava até o banheiro para urinar.
- Setenta e cinco....e esse rosto vermelho da praia, heim?
Ele perguntou em um tom que insinuava que eu teria mais.
- Não tenho filhos Nel. Moro com minha garota e o cachorro dela, o Boris. - Respondi com prontidão para que sua dúvida evaporasse por si. E não era vermelhidão por causa do sol, não...mas essa parte não expliquei a ele.
- E você, mora por aqui? - Ele perguntou.
- Sim, moro. - Respondi apontando o braço para uma certa direção para informá-lo. - Não é longe. Este bairro é um ótimo lugar para se morar Nel.
- E sua saúde como está? - Perguntei.
- Está ótima. Fiquei em segundo colocado no campeonato de triatlo que teve na cidade mês passado. Além de dar aulas em minha academia, atendo em meu consultório. - E você, Jonas?
- Triatlo? Minha saúde? Está ótima também. - Respondi com um sorriso largo no rosto e balançando os ombros. - Meu médico ficou impressionado e me deu os parabéns pelos exames. Ainda treino as vezes.
Mal sabia ele que os únicos remédios que tomava eram para refluxo e úlcera e meu treino consistia em levantar do sofá, agachar até a última prateleira da geladeira para pegar cerveja.
- Mas me diga. - Perguntei. - Vamos tomar uma cerve...éh...um suco em casa? Já imaginando seu argumento punitivo de encontro a mim.
Nel fez uma cara de desapontamento e informou que não poderia.

Porém, marcamos o dia seguinte as quinze horas para nos reunirmos e conversarmos sobre os bons tempos. E sim, ele aceitou a cerveja, e reprovou o maço em meu bolso. Alertou também, de que eu havia pulado um dos botões da camisa, ao abotoá-las.
Nos despedimos, peguei as sacolas e voltei para casa.
Os barulhos estranhos provenientes de meus chinelos ainda me acompanhavam.


Dedicado à Nel