domingo, 16 de agosto de 2020

A Garota Insaciável




























Passava dos noventa quilômetros na rodovia com meu Chevelle 71. A estrada era um verdadeiro tapete dos sonhos. Uma reta sem fim.
Aquela estrada me dava sossego, paz, contentamento. Meu Chevelle 71 agradecia, pois não precisaria ter que aturar aqueles buracos, quebra molas do meu bairro. Ali, na estrada sem fim, poderia usufruir de seu potencial.
Vidros abertos, o vento sem controle em meu cabelo, o som nas alturas, dia de sol, duas da tarde de uma quarta feira.
Pensava na Thiffany. Havia deixado somente um bilhetinho na mesa. “Fui ver meu editor, volto em algumas horas”.
Sherman estava de férias com a família em outra cidade e me pediu que fosse mais que depressa fechar um contrato com uma grande revista.
Há anos trabalhamos juntos, foi o editor que confiou em mim. O conheci em um bar. Estávamos bêbados devido ao jogo da final, ele me perguntou o que eu fazia, “sou escritor”, ele respondeu “não acredito, trabalho com isso”.
E daí nasceu uma grande parceria.
Tenho que fazer a barba, olha isso. Repreendia-me enquanto me encarava no retrovisor.
Preciso perder peso. Sinto tonturas quando abaixo.
Sinto cansaço.
Quanto será que vou receber por este...
De repente, uma buzina altíssima me assustou de verdade.
Uma senhora de cabelos brancos e com um carro mais velho do que o meu, ultrapassando-me enquanto seus olhos seguiam os meus. 
Seu carro seguia adiante. Foi engraçado. 
Estava devagar em relação à estrada. Continuei na faixa da direita, porém coloquei atenção redobrada.
Viajar faz isso com você. Você se perde em seus pensamentos. Tranquilo, sem pressa, pensando na vida. 
Às vezes pegar o carro e sair sem rumo é a melhor coisa de se fazer. 
A fome e o cansaço começaram a bater após horas de direção. Placas da estrada sinalizava um restaurante alguns quilômetros adiante. 
Dava muito a calhar.
Dei seta, conduzi até uma estrada de terra que fazia parte do estacionamento amplo do Burguer's Park e procurei até encontrar uma vaga do lado de um coqueiro.
Entrei, aquele ar frio, novo e puro me invadiu fazendo-me relaxar. Tirei os óculos de sol, analisei o local. Estava vazio por ser aquele horário. Resolvi sentar em umas das mesas do fundo, ao lado da janela.
Uma garota começou a se aproximar, a garçonete com um bloquinho nas mãos.
Uma graça, uma bela mulher. Vestido rosa, cabelos presos na nuca, loira, magra, alta, olhos azuis vivos, seios fartos.
- Bom tarde, o que vai querer?
-Olá, boa tarde. - Apertei os olhos para tentar ler seu nome na plaquinha abotoado no bolso da frente do uniforme.
-Bety.
-Olá Bety, Jonas.
Ambos sorrimos.
-Me vê um café e croissant.
-Café com creme?
-Sim.
- Algo mais?
“Peça o telefone, o telefone” pensei.
-Não.
-Um momento - Disse levando o cardápio
E lá se foi uma mulher de fibra. Fiquei a observar ela desaparecer para dentro de uma porta, talvez fosse à cozinha. E não tive coragem de pedir seu telefone. Essas coisas não se hesitam Jonas, só vai e faz. Confiança.
Enquanto aguardava, mexia no saleiro, no açúcar, analisava a validade dos temperos que ficavam em um cestinho de vime ao lado dos guardanapos, dava tapinhas na mesa enquanto olhava em volta como se quisesse achar algo.
Meu pedido estava chegando
-Que rápido.
-Estarmos tranquilos hoje.
-Quanto tempo trabalha aqui Bety?
- Uns oito meses.
- Está gostando?
-Sim. Porém, não sou daqui.
-De onde é?
-Do interior.
-Que ótimo. Gosto do interior. Cidade pequena é ótima para se viver.
Ela riu.
Bety foi tratar de outra mesa, pois havia um cliente chamando-a a um tempo.
Fitei enquanto ela em pé anotava o pedido do cliente e dei uma golada no café. Estava horrível. Afastei da boca, fiz cara de desaprovação e coloquei um pouco mais de açúcar, mexi. Provei, estava a mesma merda. Bebível. 
“Você que fez esse café asqueroso, mocinha?” Pensei enquanto observava o recinto. 
Bety devia ser aquela caipira que o pai lhe ensina o que é certo e errado, vai a igreja todos os domingos, se família, compra sapatos rasteirinhos para ir ao baile e segura de forma errada uma taça de champagne em uma festa de requinte só para mostrar que conhece a coisa. Deve chegar antes das dez da noite depois de um encontro.
Meu lanche já havia terminado. Levantei a mão solicitando a conta.
Bety a trouxe após alguns minutos. 
Toquei sua mão. Ela percebeu.
-Toma aqui.
Dei uma gorjeta a ela.
-Nossa não precisa senhor.
-Aceite, você merece.
-Obrigado senhor.
Ela riu.
Agradeci e dei uma piscadinha.
Levantei, paguei e com um sorriso no rosto me encaminhei até a saída.
Virei-me, mas não a encontrava mais entre os clientes.
Palitando os dentes entrei em meu Chevelle 71 e segui viagem.
Dia seguinte voltei ao restaurante para tomar aquele café horrível mais uma vez e pedir seu telefone, quem sabe flertar.
Soube que ela tinha pedido as contas e voltado a sua terra natal para cuidar do pai.
Voltei para o carro e segui viagem.
Fiquei indignado comigo mesmo. Puto da vida. 
- Nunca perca uma chance Jonas. NUNCA! - Gritava comigo mesmo - Chance perdida, experiência não vivida, Jonas!!
Tadinha da Bety, nunca mais a verei. 
Espero que ela consiga lidar com as adversidades da cidade grande e dos mal-intencionados...



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