quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Um Tiro Certeiro















Ao constatar o relógio em meu pulso, vejo que são seis e quinze da manhã. Dou um bocejo de leve e continuo a vigília. Passei a noite toda aqui, no mato. Sozinho.
Sou um caçador. Trabalho com taxidermia, empalho animais. As vezes, vendo as peles e carnes para os comerciantes da cidade. É um trabalho que caiu na minha mão pelo destino, eu diria.

Espero encontrá-la hoje.

Abro a aba do meu bolso dianteiro do meu uniforme, e tiro dali um cantil. Desrosquei-o e bebo um pouco d'água.

Há dias que estou aqui, a procura dela.
Na verdade há meses.

Eu ver um animal, na minha mira, já posso até prever se será um bom negócio ou não.
Tamanho, pelugem, garras, até presas.

Mas quando a vi, sabia que ela era especial. E há um bom tempo estou aqui a espera. Calmamente, pacientemente, embaixo de sol, chuva, ventos assombrosos, cerração ou neblina.

Ela nem imagina que eu existo, ou que estou com uma arma carregada a mirar em sua direção.

O sol começa a bater em meu rosto, viro a aba do boné pra frente. Enrolo duas ou três vezes a bandoleira em meu antebraço esquerdo, carrego meu rifle e me deixo ao lado de uma pedra, na grama alta. Estou totalmente camuflado aqui. Devido ao tempo que estive no exército em minha juventude, ficar horas na mesma posição não é um um problema crônico, ao contrário, é relaxante.

A floresta é densa e espessa, alta e fechada. Já estou aqui há muito tempo.

Um belo dia, vi um coelho passar em minha mira, em uma distancia de uns quinze metros. Ele passeava com seu filhote. Retirei o dedo do gatilho, e pela mira do rifle testemunhei tal imagem.

O coelho, ou fêmea, creio eu, era de cor marrom, de olhos negros, olhos alertas e espertos. Seu filhote, de cor laranja, tinha uma cabeça mais pequena em um corpo maior, também chutaria ser uma fêmea, por causa das ninhadas. Linda, pelagem sedosa, seu pequeno nariz não parava um minuto, cheirava tudo pela frente.

Ao testemunhar aquela imagem do filhotinho de cor laranja, eu meio que sai de mim mesmo. Fiquei intacto, observando aquele ser sobrevivendo em sua maneira, por si, em si mesmo.

E há dias estou aqui no mesmo lugar, aguardando aquele pequeno filhote aparecer.

Não vou desistir. Não mesmo!
Meu velho pai costumava brincar comigo, quando ele dizia: "Eu aposto vintão que não vou desistir", aprendi isso com ele. Não existe essa possibilidade. Não mesmo.
Passei horas a mais em meu posto a cada dia. Aguentei diversas provações da mãe natureza e permaneço aqui, porque sei o que quero. E nada irá me fazer desistir.

Até, que um dia, já escurecendo, o frio começava a cair sobre mim. Ao fundo atrás dos arbustos altos, vi algo se mexer, olhei pela mira, e constatei que parecia com o que estava procurando.

Sim, era mesmo. Eu sabia. Meu instinto avisara. E nunca falhara. Porém a noite, já estava quase completa, e não teria outra chance, tive que arriscar.
E foi que, respirei fundo, deixei todo o ar sair de meus pulmões e naqueles segundos de ausência de movimentos, atirei.
Conforme a força do impacto, o filhote se esquivou e foi para dentro da mata . Não pude mais vê-lo.
Mas sabia que havia acertado.
Levantei, e olhando para o céu, me estiquei um pouco. Fui até ele.
Ao procurá-lo, perto de duas árvores grandes, constatei que ele estaria onde imaginava. Acertei.
Ele ainda respirava e dormia tranquilamente com meu tiro de tranquilizante.

A levei para casa, onde tinha um grande viveiro para animais que tinha uma certa estima e carinho.
Era uma fêmea, cor laranja e já estava grandinha. Sua mãe já tinha a deixado ir por si mesma.

Um tiro certeiro, paciência e insistência. Fizeram com que conseguisse o que eu almejava.

Como meu velho pai dizia: Cuide do que é seu...