quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Hanseníase (Parte 3)















Após voltar da cozinha, segurava o copo com dois dedos, assoprando-o diversas vezes. Estava escaldante.
- Quais suas memórias daquele tempo, Jonas. - Nel perguntou.
- São tantas. - Respondi olhando para o nada, como se as lembranças fossem postas em minha mente uma atrás da outra.
Mas não me lembrava de quase nada.
Ficamos em silêncio por um momento até que foi quebrado por mim.
- Lembra-se do soneca, manco-véio, filho do rei?
Nel começou a rir. Eram ótimas recordações de anos dourados.
- O soneca... - continuei. - Sempre estava com cara de nada. Gostaria de compreender como nos dias de hoje, com todo o stress e ansiedade da vida diária, ele se mostrava despreocupado quase dormindo nas colunas. O tosco e desprezível manco-véio.... sem comentários.

o silêncio se fez novamente

- Indo muito à praia, Jonas? - Nel sorriu.
- Lembra-se quando me perguntou ontem se eu estava tomando sol?
- Claro.
- Sol nenhum. - Respondi com insatisfação. Peguei isso do João da Mercearia. Se chama Hanseníase.
- O que é isso?
- Manchas vermelhas pela pele. Coçam. Há dormência na região, caroços.
-  Meu Deus. Mas espere, João da rua Gaspar?
- Exato. Fui lá e conversamos por um bom tempo. Até estranhei por ele se coçar muito também. Dia seguinte começou essa merda em minha mão.
- Ah, conheço ele. - Nel disse. - Fui à mercearia dele algumas vezes. Um cara digno, super honesto.
- Com certeza. - Concordei. - Semana passada esteve fechado a semana inteira. Ferias na praia.
- Praia? Estranho. Me informaram que ele havia ido a um velório. - Nel questionou.
- Ele tem um filho. - Continuei.
- Sim, o conheci de vista. Um belo dentista.
- Não, ele trabalha numa boate como segurança, Nel.
- Ele namora uma bela garota. Ela é engenheira.
- Não Nel, ela está desempregada.

Um cara super honesto.

(Nos entreolhamos e mudamos de assunto)

Nel fitou de relance seu relógio e disse que teria de ir embora.
Eram quase cinco e meia.

Ao levantarmos, fios de cabelo que se desprenderam do restante, descansavam em seu rosto de frente a seu olho.
Com um movimento de uma das mãos, o recolocou no lugar.

Nos abraçamos três vezes como o habitual e nos encaminhamos até a porta.
A abri, ela rangeu.
Neste momento, Thiffany retornava com Boris.
Apresentei ambos. Boris, um beagle, o cheirava e balançava o rabinho.
Nos despedimos e o observei descer as escadas, já que o elevador estava quebrado.
Toda aquela aura âmbar permanecia com ele.
E sempre o acompanharia aonde fosse.


Dedicado à João da rua Gaspar

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