segunda-feira, 23 de abril de 2018
Ser Etimológico
(Época: Hoje)
Senhor Étimos, depois de anos e anos de estudo das mais diversas áreas do conhecimento humano em um castelo no norte do pais, o mesmo, com a vida tacanha, pequena e tediosa de anos de reclusão, resolveu-se desbravar novos ares e lhe ocorreu sem mais nem menos de ir ao sul para uma viagem de talvez só de ida para ensinar seus conterrâneos.
Cansado da vida celibatária socialmente do castelo, a reclusão social que permitia que senhor Étimos ficasse por longos dias isolado de todos, somente seu mordomo e cuidadora tinham acesso a ele, mas mesmo assim, não trocavam-se muitas palavras.
Senhor Étimos era como aqueles filósofos gregos fisicamente falando, barba longa branca, calvo na parte superior mas cabelos longos prateados ao lado da cabeça, com um olhar penetrante e presença marcante.
Seguiu viagem de trem para o Sul. Seria duas horas de viagem, então o mesmo poderia matar seu tempo lendo alguns livros de filosofia ou sociologia ou até mesmo, escrevendo novos poemas para seu acervo pessoal.
Ao chegar na última estação, senhor Étimos observou com certa aflição as inúmeras pessoas que iam de lá para cá.
Tumulto, desordem, movimentação extrema, se fez observá-los com certa estranheza.
Ouvia as conversas alheias de reprovação, inveja, ciúmes, orgulho excessivo, conflitos interpessoais, tanto pelo telefone celular como ao vivo, ali do seu lado.
A pobreza material dos olhos das pessoas, a doença do filho onde a mãe o carregava com carinho e amor, do pai desesperado pela falta de recursos para ajudar sua família, dentre outras coisas.
Senhor Étimos ficou embasbacado com tamanha ousadia nas palavras vãs e atitudes duvidosas.
No castelo, Senhor Étimos, estudou a fundo a história do mundo em seus respectivos séculos, porém percebeu que tudo aquilo que via no momento presente era muito parecido com seus textos lidos da época de 1400 ou até de 1750.
Constatou que, o homem moderno era nada mais do que somente a cópia de seu antecessor.
Toda a tecnologia que nos rodeava, toda a fartura material, conforto da vida moderna, de nada havia mudado o interior de cada um.
Sendo assim, Senhor Étimos escreveu em seu diário um poema que relatava sobre toda aquela sua experiência que tivera fora do castelo, fora do Norte de seu pais, fora de sua grandeza com seu espírito.
E o poema tinha o nome de
"
Ser Etimológico
Como é desanimador - pra não dizer deprimente - ver a humanidade, esbanjando de suas capacidades mais sublimes de evolução e conhecimento, retornar ao seu estado inorgânico de matéria. Seria um destino pré determinado ou da sua natureza - na qual luta persevera mente afim de negar a si mesmo esse fado pobre e miserável?
Poderia me contentar assim com essas poucas palavras de uma reflexão chula se a mim bastasse o fato de que todos nós teríamos um destino já pré determinado e que nada adiantaria gastarmos energias a algo de natureza imutável, sem opções de escolhas ou evoluções...
Porém, minhas capacidades mentais cheias de ganâncias e desejos intensos por conhecimento, lacera minha natureza moral e subjetiva quando penso na "crença" ligada ao determinismo da humanidade. Esses tipos de pensamentos reservo aos cegos, de processos mentalistas menos favorecidos e de poucas motivações a evolução psíquica.
Mas a mim me admira e muito ver que grande porcentagem do ser bípede se contenta com esse escasso de explanação.
Esforçarmos a fazê-los acreditar fora de suas ilhas é o mesmo que o conto de nosso digníssimo filósofo Platão, quando nos explica sobre o mito da caverna.
Humanidade... dotada de abundantes características da natureza humana, nas quais podemos incansavelmente descrever das mais diversas maneiras: sentimento de bondade, benevolência, em relação aos semelhantes, ou de compaixão, piedade, em relação aos desfavorecidos. Enfim..
Mas essas, são falsas formas benevolentes ou mascaradas para não refletir o que é de pior nessa raça que muitas vezes é motivo de dó e de desgosto.
Peço desculpas ao leitor se veio com esperanças de se deliciar de conotações belas no que se refere a sua própria raça... porém, apresento-lhes talvez a mais fina camada do que é real e "curioso" nessa espécie que se diz a mais racional entre todas.
Mas a mim me alegra por demais se outra espécie com capacidades cognitivas e entre outras estivesse lendo... meu remorso ou qualquer sentimento de desdouro seria parco, o que me encorajaria também a convida-lo a conhecermos...
Se aproxime, e se puder nos ensine. Pois se tem algo que podemos nos orgulhar, é essa plasticidade cerebral de lapidarmos.
"
Nota do escritor:
Foto
"A Escola de Atenas", do pintor italiano Rafael; ao centro, os filósofos gregos Platão e Aristóteles. (Aristóteles apontando para baixo, dando a ideia de que a verdade está entre nós, Platão apontando para cima, clara evidência sobre a teoria das ideias).
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