sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ser Sábio, Pra Poucos















Thiffany e eu, tivemos uma briga. Ela me expulsou de casa e disse que nunca mais queria ver minha cara novamente.
Estou no quinto copo de whisky, estou bêbado e desiludido. Peço mais um bourbon para o Loyd, o garçom.
-Tudo bem Sr. Green? - Loyd perguntava enquanto me servia mais uma dose.
-Sim, Loyd. Tuuudo uma maravilha. - Respondia com aquela cara de desaprovação pela pergunta.
Loyd sorriu seco e continuou seu trabalho.
Mas olhei para mim mesmo e aos berros mentais comecei a me repreender.
Não Loyd, não está nada bem. Estou na merda. Aquela felina me deixou. Acabou comigo.
Jogou meus trapos pela janela me despejou e fechou a porta com tudo.
Os gritos podiam ser ouvidos até do andar de baixo, enquanto eu descia as escadas do prédio.
Minhas tralhas estavam por todos os lados.
Estava com uma camisa social branca, calça social cinza e sapatos marrons sem engraxar.
Olhei para o céu e já estava esfriando. A noite começava a surgir.
Encontrei uma blusa no meio das tralhas. As mangas estavam em uma poça no canto da calçada. A peguei, passei a mão como se quisesse limpá-las e caminhei pela rua escura sem rumo.
Onde vou dormir? Pensava sem parar.
As vezes, em uma esquina e outra, encontrava alguns cães, que andavam sem pressa alguma pelas ruas. Eu os invejei por um momento. Pois não possuiam nada, estavam pelados e sozinhos e mesmo assim, com a cabeça erguida, com honra, esfregavam na minha cara toda a minha impotência.
Há muito o que aprender ao olhar para um cão.
Pelo meio da rua, caminhei...caminhei...caminhei...
Depois de muito tempo cheguei em um bar de esquina com neon vermelho piscante na entrada.
Entrei, pedi um scotch com gelo e sentei numa cadeira afastada. O garçom o trouxe, dizendo, Saúde!
Levantei o copo até a altura da testa para me descompressar. 
Apoiei um dos braços no balcão, virei o tronco e olhei em volta, a luz vermelha banhava o local onde estavávamos mas cerrava os olhos se quissêssemos enxergar do outro lado do bar.
As pessoas estavam ali.
Sentadas, sem razão uma com as outras, desanimadas, sem nenhuma perspectiva sobre nem mesmo aquela noite. Me senti um pouco melhor.
De repente alguém bateu em meu ombro.
-Jonas?
Era Adam, meu vizinho.
-Adam, o que faz aqui?
-Resolvi vir aqui ver o pessoal.
Ele começou a falar e a falar. De jogos de futebol, o noticiário da tv, assuntos fúteis de corredor de supermercados, a saúde que não andava bem, a sogra que nao valia nada, o fiél rogar que ele fazia todas as manhãs ao menino Jesus por sua vida, e que tudo no final iria dar certo.
Sem hesitar, disse:
- Cara, preciso ir, vou vomitar.
Fui correndo pelos corredores com a mão na boca. A ânsia subia cada vez mais pela minha garganta, o gosto amargo e azedo de vômito começava a me invadir. Encontrei facilmente o banheiro masculino devido ao formato de um marinheirinho em neon azul pregado na porta.
Tentei abrir mas a merda da porta estava trancada. - "Tem gente!!" - Eu ouvia de lá de dentro.
Ahhh, minha única camisa social branca, como ela ficou! Que pena.
Ao voltar para o hall principal do bar, todos me olhavam com desgosto tapando as narinas. Paguei e dei o fora dali.
Continuei a andar e a andar....mas não havia mais para onde ir. Estava sem roupas, sem dinheiro.
Então decidi. Só havia um único lugar para ir.
--
Acordei com Thiffany me dando uns bicos com o sapato alto.
- Vá. Entre! E quando eu chegar nos falamos.
Levantei do canto da porta, e todo vomitado, cansado, suado, mijado e fedendo a whisky barato disse:
-Thi, eu queria....
-Não quero ouvir nada. Entre...e
-Ok.
-... cuide bem dele!
-Dele??
Mas a porta se fechou antes que ela pudesse me responder.
Primeira coisa que fiz foi ir a cozinha abrir uma gelada e descansar meu esqueleto no sofá.
Logo entendi quem eu teria de cuidar. 
Pelo corredor vindo do banheiro, o Boris apareceu. O cachorro da minha sogra, aquela rampera.
Enquanto eu o observava, ele se aproximava devagar.
O cachorro começou a cheirar meu trabalho, as notas espalhadas na mesinha da sala, babar nas minhas meias, lamber meus sapatos no canto da porta e mijar fora do jornalzinho.
Thiffany iria trabalhar o dia inteiro. Então teria de ficar com aquele bicho até ela retornar. Se ela retornar.
E eu me perguntava. Não parava de me perguntar.
Enquanto eu secava mais uma lata, ele estava ali, bem na minha frente como uma esfinge. Lambendo os beiços ou as próprias patas. E eu não parava de me perguntar.
- Qual seu segredo? Como você consegue ficar tão.... a vontade e tranquilo? Me diga!!!
Éhh.... realmente eu tenho muito a aprender com um cão.

-
Leitor, caso queira conhecer Boris, veja neste conto.
http://manchadevinho.blogspot.com.br/2012/01/o-cachorinho-da-thiffany.html

Baú Cheio de Tesouros















Vejo os rostos das pessoas passando pela rua, pelo metrô, pelas praças, pelas calçadas.
Seus rostos informam cansaço, indignação, tristeza.
Mas seu peso está controlado, seu bronzeado ainda está na pele, e seu andar, sem nenhum mancar.

Cada um preocupado com seu mundinho particular.
Conhecendo seu mundinho tão guardado e cobiçado, veremos que é tão pobre, tão cheio de falta, e que a tristeza derrama por todos os lados.

Guardiões de seu baú de tesouros.
Nele há um imenso valor. Um baú cheio de riquezas.
Cheio de pedrinhas de argila, calcários e areia.

"Aos mortos vivos, que desperdiçam seus momentos únicos por sonhos ainda não alcançados".

domingo, 14 de dezembro de 2014

Um Velho Amigo














Andava tranquilamente pela calçada do meu bairro em uma tarde qualquer, quando um cara veio até mim e bateu em meu ombro.
Dizia ser um amigo de longa data, ficou surpreso ao me ver.
Pensei que a cirrose tivesse matado todos meus amigos.
Me impressionei o tempo que não nos encontrávamos, pelo o que ele falava. O quê? Décadas?
Ele me cumprimentou, disse meu nome, lembrou de Thiffany, da minha sogra, aquela macumbera dos cabelos brancos sem tingir e outras coisas mais que nem dava importância.
Ainda possuía cabelos, e o mais impressionante, é que ainda havia fios pretos.
Ele falava sobre muitas coisas, quase todas inúteis e fúteis. Não irei expor aqui quais assuntos. Ah, use a imaginação. Você sabe o que é ser amolado por assuntos extraordinariamente sem graça. Para mim, era falta de sexo.
Falava com emoção de pessoas queridas como filhos, netos, sobrinhos. Como a emoção em vê-los em aniversários, finais de semana, feriados, natal, eram agradáveis.Eu tentava fingir que estava interessado naquele assunto, dando risadas forçadas ou até levantando minhas sobrancelhas num gesto de surpresas constantes, mas claro, sem ele desconfiar.
Até consegui, foi fácil. Fui levando o papo.
Ele falava, falava e falava sem parar.
Então percebi que não lembrava seu nome. Não me lembrava de nada. Nem de onde o conhecia.
Enquanto eu o ouvia, tentava me lembrar mas parecia uma matraca, era impossível processar alguma lembrança ou imagem com todas aquelas informações vazias para mim.
Comecei a chamá-lo de nomes aceitáveis, como "você", "cara", "parceiro", em começos e términos de novos assuntos. Eu era bom nisso.
Ele, ao contrário de mim, em todas as sentenças me chamava pelo nome. Achei incrível. Nem mesmo eu lembrava o nome das pessoas.
Eu não lembrava mesmo. Estou ficando velho.
Acho que a vida é cheia de bobagens, e só com a idade você as vê nitidamente.
Acho que se ele me devesse dinheiro ou tivesse nascido com a bunda virada pra lua, e me ajudado em alguma situação, com certeza, eu o chamaria pelo seu nome e até pelo sobrenome, se quissesse.
É fácil quando precisamos da ajuda de alguém ou quando precisam da gente. Nos sentimos importantes.
Ele falou um pouco mais, mas logo nos despedimos pela mesma forma que nos vimos. Fui breve.
- Bom, foi bom te ver Jonas Green. Muito bom te rever mesmo. - Ele dizia.
Eu só podia dizer obrigado. Não imaginava da onde aquele cara me conhecia.
-Um abraço Jonas.
-Até um dia...amigo.
Voltei pra casa com passos largos e rápidos. Fazia frio.
Encontrei um chiclets, aqueles de caixinha, no bolso da calça. Era o último.
O peguei, joguei na boca e vim mastigando. Começava a chuviscar.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Desculpe Pela Confusão
















Norman tinha problemas de aceitação e amor próprio.
Brigara mais uma vez com Samantha. Era a quarta briga no mês.
Não conseguia fazê-la feliz...muito menos ele. Eles não se entendiam.

Deu um tiro em si mesmo na praça principal da cidade.
Os pássaros voaram para longe quando Norman a descarregou.

Menos de quatrocentos metros dali, Bob e John gargalhavam das piadas que Norman contara na noite anterior.
-Aiai....o Norman é muito engraçado, cara! - John disse ao secar os olhos na manga da camiseta.
-Com certeza, cara! Bob respondeu ainda tentando recuperar o fôlego.
-Ei Bob, falei com Samantha hoje. Ligou para o Norman pela manhã, mas ele não atendeu.
-Sério? - Bob perguntou atônito.
-Sim. Disse que iria se desculpar ou fazê-lo se desculpar...não sei. Vai pedí-lo em casamento.
-Nossa, sensacional! - disse Bob. - É isso o que ele quer.
-Sim. Mas eles brigam demais, cara. - John disse ao se recostar no sofá.
-Éh...
-Espero que eles se resolvam logo e parem de brigas. Isso não leva a nada. - Disse John.
-Éh...
-A vida é muita curta. Vai que acontece alguma coisa....
(pausa)
-...que você não pode voltar atrás, né?
- Tem razão, cara. - Disse Bob.
(pausa)
O telefone começa a tocar.....


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Epifania da Minha Existência




A Revista "Good Feeling", havia me contatado alguns dias atrás para escrever uma matéria sobre a vida das pessoas. Os bons pensamentos, a boa saúde, sua rotina, como elas vivem, etc... pensei que fosse algo quase divino.
Bem, aceitei o trabalho e comecei a escrever.
Era uma quinta feira, umas três da tarde. Estava sozinho em casa.
Peguei uma gelada e fui pra sala escrever.
A paisagem do quadro Noite Estrelada do pintor Van Gogh, ou o Pescador de Tarsila do Amaral ou qualquer um do Reint Withaar, refletia em uma....NÃO. Nada refletia.
Comecei a escrever e a escrever.
Como perdemos tempo com bobagens.
Como perdemos tempo com amores não correspondidos.
Como perdemos chances de mudar de vida.
Como não nos livramos daquilo quens fazem mal.
Como não aprendemos quando ainda temos tempo.
E continuei a escrever.
Revisei o texto e percebi uma coisa.
Como o ser humano desperdiça sua vida e não aproveita o que lhe é dado em tempo hábil.
É como um balde cheio dágua que fica a gotejar sem parar, e o visse cada gota cair ao chão sem se preocupar, simplesmente rindo.
O seu tempo está a encolher cada dia mais e você continua a observar sem nada fazer.
Nessa hora, tive uma epifania da minha existência.
Ao entrelaçar os dedos atrás da nuca e se espreguiçar na poltrona para finalizar o texto, vi meu teto. O observei e com tudo aquilo que acabara de escrever pude finalizar o texto.
O mesmo teto com toda a pintura descascada a ponto de começar a desmoronar devido as goteiras criadas pelas fendas de um cano estourado que não dei a mínima de arrumar.

''Somos criaturas frágeis, choronas e mau-educadas, esperando nos darmos bem, somente nós.''
Mas essa última frase não enviei à revista. Ficou somente para mim.