domingo, 16 de agosto de 2020

A Mancha de Mostarda

















-Maldita mostarda! - Exclamei.

Depois de esperar um bom tempo pelo meu hambúrguer duplo na praça de alimentação do shopping do bairro, quase que o molho amarelo derramou em minha calça social e camisa. O lanche estava encharcado dele. Estava faminto.

Minutos depois, sentou próximo a mim uma senhora de uns quarenta e sete anos, noventa quilos com um vestido largo florido. Seu cabelo era encaracolado, cheio, tingido de um vermelho bordô. 
Nas cadeiras em volta da mesa, soltou duas bolsas de mão e duas sacolas de loja de brinquedos.
Pegou seu celular e começou a ler uma mensagem. Lia mexendo os lábios e fazia uns barulhos com a boca. Impossível não se incomodar com aquilo.

Havia poucas pessoas na praça de alimentação, talvez por ser quatro horas da tarde, e somente desocupados ou quem faz o trabalho noturno estariam ali. Eu fazia parte da primeira opção. O ambiente estava vazio.

O engraçado foi observar como ela falava sozinha enquanto esperava seu pedido. E fazia mechas no cabelo com seu dedo indicador. Olhava pra cá, olhava pra lá.

Curiosamente ela pediu o mesmo pedido que o meu.

Após o garçom chegar e colocar a bandeja na mesa, ela sorriu para o lanche com alegria e excitação, enquanto passava a língua entre os lábios.
Deu uma mordida com tanta vontade que fez escorrer a mesma pasta amarela em seu vestido onde ficou com uma mancha amarelada próximo ao peito.
Passou o dedo indicador por cima e o chupou. Nessa hora, percebeu que eu a fitava. Disfarcei o olhar, porém ela percebeu.
Enfiei a cara em meu lanche, como se quisesse encostar a testa na mesa.

Ainda me observava.

O garçom foi chamado por ela, escreveu algo em um pedaço de papel, e apontando disfarçadamente para mim, pediu que ele me entregasse.

Eu de cabeça baixa continuava a comer como se nada tivesse acontecido.

O garçom veio até mim com cuidado e pedindo licença, disse:
-Aquela madame pediu que lhe entregasse este papel, senhor.
-Olá... Obrigado. - agradeci.
Abri o papel e estava escrito.
"Olá, sou Mary. Sou aquela que você pode se dar bem esta noite. Venha aqui, senta comigo".
- Sou gay - murmurei movendo os lábios.
Ri sem jeito, levantei devagar, e dei o fora o mais rápido possível.


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