domingo, 16 de agosto de 2020

Venha, Dona Morte















Quero dar um recadinho para a dona morte antes que ela venha me visitar.
Posso estar prestes a abaixar as calças para urinar, ajoelhar ao amarrar os sapatos, caminhar sonolento de madrugada até o banheiro ou engasgar com um osso de galinha em um pleno almoço de domingo de sol em família e ela vir me dar um tapinha nas costas.

Ela é um convidado não-desejado.
Um mendigo na ceia dos ricos.
Um hipócrita em uma reunião de bachareis.
Um ateu na escola de cristo.

Essa criança, um dia, também chegará a minha idade. Um dia ela também estará na merda. E quando este dia chegar, estarei abaixo de seus pés, não poderei rir por estar muito rígido. Ela caminhará sobre mim.
Eu poderia ficar triste talvez, pelo meu fim....fim triste, deprimente e patético, mas como não sairei vivo dessa, eu não me importo com o amanhã. Muito menos com o ontem.
A merda que fiz ontem, já foi levada pelos canos do esquecimento, o que farei amanhã, estou pouco preocupado.
Ficarei aqui, a saborear meu mais suculento banquete, e aproveitar cada momento que irei desfrutar, antes que eu engasgue com algum osso de galinha que possa entalar em meu esôfago, impedindo a passagem de ar, fazendo com que eu me desespere em busca de ar. Algo que você não dá a mínima antes que começar a perdê-lo.
Mas é isso.
Minha bança está cheia, e dou mais um gole em meu Jack com prazer.
Venha Dona Morte, venha. Quer me ferrar?
Vamos nos ferrar juntos.

Venha Dona Morte, venha. Em sua capa negra e foice amolada.
Venha me visitar entre uma golada e outra.
Em uma gozada informal sem importância.
Em uma manhã de um dia nublado tedioso.
Venha me tocar de perto...sentirá meu mau hálito fedorento e minha apatia...

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