quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Quem diabos é Mercedes McCambridge? (Parte 2)
Minhas costas estavam queimando.
Virei pro outro lado da cama, aspirei fortemente e abri um dos olhos. A claridade se mostrava no quarto inteiro.
Funguei e me repreendi por ter esquecido de fechar a cortina.
O relógio do criado mudo mostrava uma e cinco.
Leonel chegaria as três.
Dá tempo para cochilar um pouco mais, pensei.
Duas e meia levantei.
Escovei os dentes, passei uma água no cabelo, penteei para trás e dei um sorriso forçado para o espelho para checar se estava tudo bem.
Vesti a mesma camisa de ontem, e uma calça de moletom preta pois estava com frio. Meias brancas também. O chinelo de dedo estava seco.
Para aguardá-lo, peguei uma cerveja, liguei a TV e sentei na ponta do sofá da sala. Passava o jogo.
Dei um golada, enruguei o rosto. Estava muito gelada.
A dor de garganta voltou a atacar.
A campanhia tocou as três e três. Olhei pelo olho mágico. Era ele.
- Vamos entrando. - Disse com os braços abertos.
- Olá Jonas, como está? - Leonel disse ao me dar um abraço fraterno triplo.
- Tudo bem. - Respondi. - Vamos entrando. Não repare a bagunça.
A parede próxima à janela, descascava devido a uma infiltração que eu postergava em consertar. A mancha verde musgo denunciava meu descuido.
No raque marrom escuro da TV, havia pó suficiente para desenhar com o dedo, um rosto grande e feliz ou simplesmente para testemunhar a cor discrepante que haveria entre ambas.
Havia dois quadros na parede, mas estavam tortos e um estava amarrado por arame.
O meio do sofá estava meio molhado. Havia derramado cerveja pois costumo apoiar ali quando assisto TV ao almoçar. Fora que Boris já usou como privada. Mas isso, Nel não precisava saber.
Ao olhar para o lustre, das três lâmpadas, somente uma acessa, podia se ver uma aranha descendo por sua teia.
A TV era de tubo e havia duas palhas de aço em uma das antenas.
Na sala, pedi que se sentasse na ponta do sofá. À sua frente, havia uma mesinha com latas vazias, papéis com anotações, uma bandeja e um cinzeiro imundo com partes de cigarros amassados.
- E as novidades? Perguntei indo para a cozinha.
Por diversas vezes, Thiffany me alertava que a casa cheirava tabaco, cerveja vencida, suor, além de mofo. Que eu teria de limpar a casa e desodorizar o ambiente e blá, blá, blá. Que algum dia, algum amigo ou visita viria aqui, e testemunharia o relaxo e não seria legal. Mas sabe como é, acostumamos com o cheiro quando estamos imersos nele. Agora já era tarde.
- Bem, acabei de vir de uma consulta. - Nel respondeu com firmeza.
- É mesmo? Como assim? - Minha voz distante perguntava da cozinha misturada com os barulhos vindo de lá.
- Sim. - Ele continuou. - Me formei em psicologia com mestrado em psicanálise com todas as honras. Tenho um paciente, chamado Machado. Ele possui Transtorno Obsessivo Compulsivo, tem inseguranças e desejos de se autoafirmar, além de não contribuir satisfatoriamente com suas idéias em prol do bem comum.
Voltei com duas latas, um saco de amendoim em uma mão, e uma cadeira de praia em outra.
- Trouxe uma cerveja pra você Nel. - Estendendo a lata para ele.
Coloquei minha lata na mesinha, o amendoim na bandeja e abri a cadeira no meio da sala, questionando-o.
- Que caso foi esse?
- Um paciente que tenho. Chamado Machado. É um andante.
- Andante? - Perguntei abrindo o lacre da lata.
- Sim. Ele consulta comigo há um bom tempo. Veio de outro estado. Usou caronas, dinheiro emprestado, ajuda de amigos, muitas vezes, teve que caminhar até seu destino. Por isso andante. Um apelido amigável que ajuda em sua terapia.
- E o que você quis dizer com auto afirmar, contribuir satis....satis.... - Perguntei com travas na língua.
- S a t i s f a t o r i a m e n t e. - Me corrigiu com ênfase didática fazendo cara de desaprovação da minha falta de saber me expressar corretamente.
- Isso!
- Bem, o caso dele... - Nel ao cruzar uma perna sobre outra e afundar os óculos com o dedo indicador continuou. - ...O conceito por trás de toda limitação psicológica advém de contradições estruturais profundamente danificadas linguisticamente e armazenadas na falta de recursos, criados na infância ou por um trauma muito grande que a pessoa experienciou...
- Isso é algo da educação né? Com certeza. - Expus por cima de sua explicação.
- Bem, não. A personalidade, desejos e sua vida psíquica sofre insatisfações, fantasias, problemas em lidar com a realidade, falta de senso atemporal ou espacial, que no conjunto compulsivo, irracional...
- Você acha que isso...
- Posso continuar? - Nel interrompeu-me.
Fitava-me sério, e piscava diversas vezes entre os segundos.
- Sim, claro. - Disse ao movimentar a mão em movimentos circulares como se cedesse licença.
- De imediato, se faz presente tais sintomas inconscientes. Que tem a função importantíssima na estabilização da vida consciente.
Eu o ouvia como nos velhos tempos e o instigava.
- Mas isso pode ter cura? - Perguntava admirado com um punhado de amendoim na mão.
- De fato, o comportamento irracional inconsciente guia o comportamento consciente. A supervalorização representativa dos valores da sociedade, o esforço em criar harmonização da realidade, repressão e ocultação das fraquezas, cria-se a característica de retardar inicialmente uma melhora no quadro do paciente.
- Entendo.
Sua oratória, didática eram ótimas. Ele continuava.
- Meu paciente Machado, procura um comportamento que seja aceitável em seu dia a dia. Mesmo que sua performance social seja danificada com seus trejeitos falhos e dirigidos a salientar sua aceitação no grupo. Suas idéias não são usadas em seu trabalho, por serem não praticáveis. Idéias estúpidas, bizarras. Mesmo ele se convencendo de que seus impulsos são satisfatórios. Ele se frustra, e é onde ele querendo conquistar o afeto do público ouvinte, se faz das suas piadas sem graça uma arma para si mesmo.
- Uhum. - Eu escutava com a coluna curvada na cadeira com o rosto descansado em uma das mãos.
- Além disso, a psicanálise explica que...
Enquanto Nel relatava o caso, percebi que meus olhos começavam a pesar. Relutava em me manter acordado. Iam fechando e fechando. Me endireitava na cadeira e remexia a língua dentro da boca para despertar. Dei um tranco pra trás e pisquei diversas vezes, para voltar a me concentrar. Outras vezes trocava a posição das pernas, outras, comia mais amendoim.
- Dependendo do sintoma, podemos...
- Ei Nel. - O cortei abruptamente.
- Ainda não terminei, você pode me deixar concluir meu raciocínio? - Nel questionou levantando seu braço em minha direção como se quisesse me parar.
- Não, cansei. - Respondi com um sorriso no rosto. Esse seu andante é um caso perdido, esqueça-o.
Ele riu.
- Mas me diga. - Continuei. - Como se chamava a loirinha que aparecia nas suas aulas pela manhã?
- Loirinha? - Nel franziu o rosto pela interrupção de suas idéias mas fez força para lembrar.
- Isso. Como chamava mesmo aquela gatinha com a voz da Mercedes McCambridge?
- Quem diabos é Mercedes McCambridge? - Perguntou atônito.
- A atriz que dublou o diabo encarnado na Linda Blair em o Exorcista.
Ele riu e entendeu o que eu quis dizer.
A loirinha era linda, maravilhosa e baixinha, mas sua voz era grave, meio rouca e amedrontava as vezes. Um belo contraste. Porem, de forma alguma perderia pontos.
- Não tive mais contato. Infelizmente.- Respondeu.
Um silêncio se fez.
- Vou buscar mais café, Nel. - Disse ao levantar repentinamente jogando o controle da TV para Nel.
Mas ninguém ali estava bebendo café.
Fui até a cozinha e dei alguns tapas em meu rosto para acordar.
Dedicado à loirinha da voz grossa
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