quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Entre Poças e Sacolas (Parte 1)






Ao atravessar a rua depois de ir a padaria comprar pães, leite e cigarros, continuo a caminhar pela calçada da avenida principal até meu apartamento. Passava das quatro da tarde.

Dia nublado e chuva fina. Setembro sempre é assim.
Depois de um tempo caminhando nessa chuvinha, você percebe como ela molha bem. Porém, não adiantaria trazer meu guarda-chuva, pois ele só abre do lado invertido. Nele, faltam reparos. Não vou comprar outro.
Estou com uma camisa manga curta de linho branca com linhas azuis verticais, algumas manchas de respingos de café, short marrom e chinelos de dedo.
Estou com calor. Talvez seja pela pressão alta, não sei, já acostumei. Respirar de forma contínua e brusca, fora os arrepios momentâneos e as crises, fazem parte da vida do velho Green aqui.
Já se vão setenta cinco anos bem mal vividos.
Coloquei o maço no bolso da camisa.

Ando despretensiosamente fitando meus pés. Um atrás do outro. Estou no automático.
Penso na vida e em nada ao mesmo tempo. Coisas que fiz. Desejos não realizados que retornam em minha mente, pessoas que sinto desprezo são visualizadas na tela mental para receberem uma boa resposta desde aquele dia, pensamentos que vem e vão em uma continuidade sem fim.
Pigarreio e cuspo no chão.

Meu braço começa a doer por segurar a sacola com as compras. Estou velho e fora de forma.
Me tornei sedentário há muito tempo. As dores acompanham meu joelho quase que diariamente. Preciso visitar o dentista e arrancar o siso que está me matando.
Sem perceber, piso em poças na calçada mal planejada, que me fazem mandar um "puta que pariu", instantaneamente. Começo a xingar os políticos, reclamar da cidade, do tempo de merda.
Deixei meus óculos na cômoda. Pra quê? Não preciso.

A rotina sem gosto e deprimente é escrachada na minha cara. Vejo pessoas passarem por mim. Outras esbarram pela pressa da corrida dos ratos para vencerem na vida. Eu as xingo em pensamento.
Outras atravessam a avenida correndo. Carros buzinam pela demora de uma van não passar o sinal amarelo.
A chuva continua e meus pés molhados começam a grudar em meus chinelos, fazendo barulhos estranhos a cada passo.

Vindo em minha direção, reconheço um rosto que há tempos não o via.
Fui fechando os olhos numa possibilidade de focar melhor. Sem sucesso. Mas era ele mesmo.
Seu nome era Leonel. Meu ex-professor de ginástica. Quando treinava na academia há quarenta anos.
Um cara todo arrumadinho. Todo coerente em suas idéias. Um cara sem bolinhas de cobertor nas blusas de lã. Um homem sem a constante visita da dúvida.
Ao fazermos contato visual, ele também me reconheceu e abriu um sorriso.
Era alguém que valia a pena parar, diferente daquelas que você finge não ver para não cumprimentá-las.
- Mas olha, quem está aqui. - Eu disse.
Nos abraçamos ali mesmo, naquela calçada cheia de poças com pessoas passando de lá pra cá.
Um abraço, alternando os lados, três vezes. Como fazíamos nos bons tempos.

Haviam pequenas gotas nas lentes de seus óculos. Óculos de armação retangular de cor preta. Continuava com sua barba farta, em formato "V", porém agora, branca. O relógio preto grande que media até os batimentos cardíacos descansava em seu pulso esquerdo. A correntinha no pulso direito. Seu cabelo penteado para trás seguindo o formato do crânio era repartido com rigoroso cuidado do lado direito, estilo fade ou degradê desde o pezinho.
Com um topete alto devido ao gel, a testa brilhava.
A calça jeans azul escura, sapatos pretos de bico fino e uma blusa de gola alta, constava novamente, que ao redor dele, toda aquela aura cor âmbar reluzia o ambiente.
Ele me puxou pelo braço para sairmos da circulação das pessoas e assim, conversarmos.

- Como você está Jonas? - perguntou dando tapinhas em meu ombro.
- Estou ótimo Nel. - Respondi com um sorriso no rosto mas já com as sacolas no chão.
- O que tem feito? - Ele perguntou ansioso.
- Bem, fui a venda. - Mostrei à ele as sacolas. E você? - Perguntei rapidamente para que ele não percebesse que minha maior aventura nos dias atuais eram comprar cigarros.
- Bem. Meu aniversário de setenta anos foi há alguns dias e como estou de férias do consultório, estou na casa de amigos.
- Meus parabéns. - Toquei em seu braço e senti que ele ainda praticava exercícios devido ao volume abaixo da blusa. - Onde está morando? - Perguntei.
- Ah, do outro lado da cidade. Os netos estão consumindo minha energia. - Respondeu com alegria.
Lógico, ele não moraria neste bairro de merda, pensei.
- Mas e você? - Ele insistiu. - E a família? Está sem óculos...para um vovô de quanto?
- Setenta e cinco. - Respondi.
Mal sabia ele que não enxergava nada. Não havia operado da catarata e tropicava todas as noites nas quinas quando me encaminhava até o banheiro para urinar.
- Setenta e cinco....e esse rosto vermelho da praia, heim?
Ele perguntou em um tom que insinuava que eu teria mais.
- Não tenho filhos Nel. Moro com minha garota e o cachorro dela, o Boris. - Respondi com prontidão para que sua dúvida evaporasse por si. E não era vermelhidão por causa do sol, não...mas essa parte não expliquei a ele.
- E você, mora por aqui? - Ele perguntou.
- Sim, moro. - Respondi apontando o braço para uma certa direção para informá-lo. - Não é longe. Este bairro é um ótimo lugar para se morar Nel.
- E sua saúde como está? - Perguntei.
- Está ótima. Fiquei em segundo colocado no campeonato de triatlo que teve na cidade mês passado. Além de dar aulas em minha academia, atendo em meu consultório. - E você, Jonas?
- Triatlo? Minha saúde? Está ótima também. - Respondi com um sorriso largo no rosto e balançando os ombros. - Meu médico ficou impressionado e me deu os parabéns pelos exames. Ainda treino as vezes.
Mal sabia ele que os únicos remédios que tomava eram para refluxo e úlcera e meu treino consistia em levantar do sofá, agachar até a última prateleira da geladeira para pegar cerveja.
- Mas me diga. - Perguntei. - Vamos tomar uma cerve...éh...um suco em casa? Já imaginando seu argumento punitivo de encontro a mim.
Nel fez uma cara de desapontamento e informou que não poderia.

Porém, marcamos o dia seguinte as quinze horas para nos reunirmos e conversarmos sobre os bons tempos. E sim, ele aceitou a cerveja, e reprovou o maço em meu bolso. Alertou também, de que eu havia pulado um dos botões da camisa, ao abotoá-las.
Nos despedimos, peguei as sacolas e voltei para casa.
Os barulhos estranhos provenientes de meus chinelos ainda me acompanhavam.


Dedicado à Nel


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