Andava tranquilamente pela calçada do meu bairro em uma tarde qualquer, quando um cara veio até mim e bateu em meu ombro.
Dizia ser um amigo de longa data, ficou surpreso ao me ver.
Pensei que a cirrose tivesse matado todos meus amigos.
Me impressionei o tempo que não nos encontrávamos, pelo o que ele falava. O quê? Décadas?
Ele me cumprimentou, disse meu nome, lembrou de Thiffany, da minha sogra, aquela macumbera dos cabelos brancos sem tingir e outras coisas mais que nem dava importância.
Ainda possuía cabelos, e o mais impressionante, é que ainda havia fios pretos.
Ele falava sobre muitas coisas, quase todas inúteis e fúteis. Não irei expor aqui quais assuntos. Ah, use a imaginação. Você sabe o que é ser amolado por assuntos extraordinariamente sem graça. Para mim, era falta de sexo.
Falava com emoção de pessoas queridas como filhos, netos, sobrinhos. Como a emoção em vê-los em aniversários, finais de semana, feriados, natal, eram agradáveis.Eu tentava fingir que estava interessado naquele assunto, dando risadas forçadas ou até levantando minhas sobrancelhas num gesto de surpresas constantes, mas claro, sem ele desconfiar.
Até consegui, foi fácil. Fui levando o papo.
Ele falava, falava e falava sem parar.
Então percebi que não lembrava seu nome. Não me lembrava de nada. Nem de onde o conhecia.
Enquanto eu o ouvia, tentava me lembrar mas parecia uma matraca, era impossível processar alguma lembrança ou imagem com todas aquelas informações vazias para mim.
Comecei a chamá-lo de nomes aceitáveis, como "você", "cara", "parceiro", em começos e términos de novos assuntos. Eu era bom nisso.
Ele, ao contrário de mim, em todas as sentenças me chamava pelo nome. Achei incrível. Nem mesmo eu lembrava o nome das pessoas.
Eu não lembrava mesmo. Estou ficando velho.
Acho que a vida é cheia de bobagens, e só com a idade você as vê nitidamente.
Acho que se ele me devesse dinheiro ou tivesse nascido com a bunda virada pra lua, e me ajudado em alguma situação, com certeza, eu o chamaria pelo seu nome e até pelo sobrenome, se quissesse.
É fácil quando precisamos da ajuda de alguém ou quando precisam da gente. Nos sentimos importantes.
Ele falou um pouco mais, mas logo nos despedimos pela mesma forma que nos vimos. Fui breve.
- Bom, foi bom te ver Jonas Green. Muito bom te rever mesmo. - Ele dizia.
Eu só podia dizer obrigado. Não imaginava da onde aquele cara me conhecia.
-Um abraço Jonas.
-Até um dia...amigo.
Voltei pra casa com passos largos e rápidos. Fazia frio.
Encontrei um chiclets, aqueles de caixinha, no bolso da calça. Era o último.
O peguei, joguei na boca e vim mastigando. Começava a chuviscar.
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