segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
A Péssima Anfitriã
"Em meus quase oitenta anos de idade. "Essa", foi a pior noite da minha vida."
Eu escrevia um artigo para a revista "Diary Flow Post", sobre Confiança das Relações, Traições Amorosas e essas baboseiras sentimentais. Faltavam apenas dois dias para a entrega.
Estava sozinho no conforto do lar, enquanto Thiffany estava no trabalho.
Após terminar o conto, acendi um cigarro e comecei a entrar dentro de mim. A única coisa que se movia naquela sala silenciosa além de meus pensamentos, era a fumaça acinzentada e densa de meu cigarro que queimava por si só, e que estava prestes a queimar a ponta de meus dedos.
Passava das nove. A manhã estava úmida. O sol começava a esquentar a nós todos da cidade.
Enquanto viajava mais e mais em meus pensamentos, sem perceber, lembrei de um fato grotesco e ridículo que ocorreu em minha vida. Não me lembro bem ao certo que década que isso ocorreu, mas foi há muito tempo atrás.
Eu era jovem, estava em casa, sem fazer nada em um sábado a noite.
Meu telefone tocou, e quem estava do outro lado da linha, a anfitriã.
Fui convidado para uma festa em sua casa, insistiu que minha presença fosse necessária já que ela sempre disse que me considerava.
Naquela época, como eu era jovem e meu fígado mais ainda, eu podia me proporcionar muitas horas a mais de bebedeira.
Mesmo sendo muito tarde, aceitei o convite mesmo não tendo vontade nenhuma de comparecer. Sempre fui sedentário e preguiçoso. Além de não possuir automóvel na época.
Quando cheguei, a festa estava no ápice. Haviam muitas pessoas no recinto, uma mais estranha que a outra. Havia muita bebida e comida para todos, a música estava alta para que todos se divertissem.Como eu era muito mais jovem, então bebi todas.
Depois de quatro horas de festa, as pessoas começaram a se movimentar. Uns iam embora, outros dormiam no corredor, outros bebiam na garagem.
As cinco da manhã, haviam somente quatro pessoas na casa acordadas.A anfitriã, um casal e eu.
Ela se dirigiu a um quarto e se trancou lá, passou alguns segundos, fui até a cozinha abrir mais uma gelada.
Quando retornei, o casal já estavam no rala e rola. Eu não poderia ficar por ali, seria frustrante de minha parte ver tal cena, não acha? Tosco! Então, me encaminhei até o quarto. A porta continuava trancada, bati diversas vezes, tentei abrí-la mas nada adiantou. Eu não sabia o que fazer. Então tentei outro quarto, também trancado. Eu REALMENTE não sabia o que fazer.
Resolvi ir para a cozinha, a bagunça tomava conta daquele lugar....mesa, pia, lixo no chão. Haviam inúmeras coisas fora de lugar. A galera tinha feito "A festa" naquele ambiente.
Puxei a cadeira, sentei. De um lado a outro, procurei algo para apoiar minhas costas, encontrei uma almofada no chão, bati para tirar o excesso de pó, a coloquei no apoio entrelacei as mãos, os pés, abaixei a cabeça e tive "aquela" bela noite de sono. Vide a foto do "urso panda" (nota do autor).
Acordei com o destrancar da porta, mas até ai pensei que alguém iria me chamar para ter uma noite digna ou explicar que diabos estava ocorrendo.
A porta se fechou novamente e continuei sentado, a esperar.
Depois de vinte minutos, pela dor intensa em meu pescoço e as costas enrijecidas, fui obrigado a me levantar e ver o que ocorria naquele cômodo. Coloquei os sapatos e fui até a sala, lentamente.
Ao chegar, fiquei surpreso, pois não havia ninguém na sala, somente copos e mais copos de bebidas, jogadas por toda a parte.
Não havia ninguém, mas havia um baixo e intenso sonzinho vindo do quarto, dava para perceber pelo silêncio da manhã em uma rua tranquila. Ao me aproximar na porta do quarto, percebi que dali, vinha diversos ruídos que dava para entender o que acontecia por lá. Até imaginei que os três pudessem estar lá dentro.
Me senti como um pedaço de papel molhado no canto da pia, ou um bolo de pó no rodapé da sala.
Desiludido, voltei à cozinha mas antes fui ao banheiro para urinar.
Não dei descarga e nem lavei as mãos, estou muito a frente dessas convenções sociais e morais, muito menos naquele lugar e naquela hora.
Finalizando os fatos em minha mente do que havia ocorrido e do estava acontecendo, pensei que os três estavam no quarto, e eu ficara literalmente na mão.
Imagine você nesta situação, caro leitor.
(Não é um chute no saco, e sim, uma bica nas bolas).
Me senti um tanto quanto enganado, usado, minha presença foi usada para outros motivos e consequências, estive a beira da insanidade, foi um soco no baço.
Tudo isso, me fizeram questionar até a minha existência como ser importante para este mundo.
O plano era outro para a noite.
Só restava uma coisa a fazer, voltar para a cozinha e dormir. Mas não conseguia mais.
Dois minutos depois, a porta se abre novamente e percebi que alguém se aproximara. Eu estava de braços cruzados e olhava incessantemente para tal pessoa que se aproximava. Mas a pessoa não foi à cozinha, ela entrou no banheiro, uma porta antes.
Me levantei e fiquei ao pé da porta, intacto.
Era o rapaz. Tranquilamente, ele lavava o rosto, e ao secar se virou e me viu de pé na porta.
Sua cara se resumia a descarrego da tensão e álcool.
Ele percebeu que eu não estava com a melhor das caras. Fomos até a sala, expliquei tudo à ele. Ele não acreditara no que ouvia.
Eu estava exausto. Já passava das sete da manhã.
Não tive prazer, não tive conforto, não tive nem uma boa noite de sono.
Meu pescoço estava dolorido, minhas costas estavam duras pelo enrijecimento dos nervos devido ao grande esforço que fiz durante as horas que fiquei sentado no meio da cozinha. A dor de cabeça era tão intensa que cortava minha testa.
Em minhas últimas palavras à ele, disse:
-Foda-se este lugar, vou embora dessa merda.
-Mas você não conhece nada por aqui Jonas. Você está do outro lado da cidade.
-Ahh, não quero saber. Eu vou andando. Não poderia piorar minha situação. Ao menos se eu ficasse por lá.
O portão estava fechado, eu queria sumir daquele lugar o quanto antes.
Antes de pular o portão, pois não encontrava as chaves em nenhum lugar, passei pelo corredor e os cachorros ainda dormiam tranquilamente em suas casinhas. Tal era o sono de ambos.
Subi correndo pela rua e ao olhar a direita, dei de cara com um táxi no fim da rua. Corri e corri até ele, expliquei a situação de merda que eu me encontrava e ele disse "entra aí".
Eu não sabia onde diabos estava, o taxista me deixou em uma condução e segui viagem até minha casa.
Durante a viagem, eu não podia dormir nem ao menos cochilar, pois qualquer sono leve que poderia ocorrer, eu descansaria a cabeça para fente e faria meu pescoço contrair em dor. Era uma dor insuportável. Eu também, poderia perder o ponto de descida.
A dor nas costas aumentavam cada vez mais. Meu pescoço estava enrijecido, comecei a delirar naquele ambiente. Estava exausto, muito exausto. Durante todo o percurso, algo me consumia, me consumia de verdade. Queria saber, como tudo aconteceu, como tudo foi esquematizado pela anfitriã.
E ao pensar incessantemente, só havia uma forma dela ter planejado tudo.
Quando ouvi o primeiro destrancar da porta, ela saiu do quarto e foi para o quintal, (o rapaz me contou isso enquanto estava no banheiro horas depois), logo após, o casal foi para este quarto e por sua vez, se trancaram para ter uma bela noite de amor. A anfitriã então, retornou do quintal, abriu a porta do outro quarto e se trancou por lá, dormindo tranquilamente até as tantas, me deixando a mercê de toda a merda que me aconteceu.
Isso explica a sala vazia e os pequenos ruídos que eu ouvira, logo depois de sair da cozinha e procurar saber o que acontecia.
Estava com muita raiva, frustração, dor física e psicológica. Nada de bom, me acontecia neste dia.
Além, claro da inveja...muita inveja...
...Mas não do rapaz, que teve um belo encontro com a garota, ou da anfitriã que dormiu tranquilamente em sua cama, e deixou os convidados na merda, mas sim, dos dois cachorrinhos que os vi dormindo tranquilamente em suas casinhas de madeira com almofadas.
Nesta noite, dormi na pior das proporções, foi a pior noite da minhavida.
Exposto as mais diversas atrocidades possíveis. Desprovido de qualquer condição humana.
Depois de quarenta anos, eu nunca mais falei com tal pessoa, nem a vi mais. Passou-se muito tempo desde então...
Resolvi apagar o conto que tinha escrito para a revista e postei o conto da anfitriã.
Meu editor me informou que eu havia recebido muitos elogios pelo artigo.
Obrigado anfitriã, ganhei uma promoção.
Para a anfitriã
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