quarta-feira, 2 de maio de 2012
Quero ser Charles Bukowski / A Velha Latrina como Privada
Encontrei um amigo meu perambulando pela rua. O mesmo gorfava na sarjeta vinho com mortadela, vulgarmente chamado de "caldo de mortadela".
De longe sabia que era ele. Eu o conhecia de longe. Já haviamos bebido muito por ai.
Pois bem, começamos a conversar.
-Eae, como estão as coisas, cara?
-Ahh...tá tudo bem. - ele respondeu.
-E sua família?
-Ahh...tá tudo bem. - ele respondeu.
O que você anda fazendo?
-Eu? Virei escritor, Jonas.
-Escritor? - Perguntei.
-Sim, espere ai.
Ele estava despreocupado... despreocupado com as coisas, com a vida, com ele próprio.
Era gratificante vê-lo em aceitar e ter a satisfação daquilo que ele chamava de vida.
Ele tirou uma carteira do bolso de trás. De dentro dela, havia inúmeros papéis rabiscados.
Se houvesse ali, alguma nota de dois reais, era muito.
-Veja Jonas, veja minhas idéias.
-Hummmm. - eu disse.
-Irei sair das ruas. Vou virar um escritor de sucesso, veja minhas idéias.
Peguei o papel e comecei a ler. Era dificil de se ler com aqueles garranchos em caneta e manchas de vinho na folha. Além disso, as "idéias" foram escritas em um papel de protocolo médico em que havia um exame de doença venérea.
-Meu Deus! - eu disse.
-Gostou Jonas? Pergunto á você, pois você já é um escritor de sucesso. - perguntou ansioso.
Hunf...ele mal sabe que estou nessa vida há anos...e até agora nada. - Pensei.
-Bom cara, muito bom, continue a escrever. - eu disse com um sorriso falso ao entregar o papel.
Disse isso por pena. Não tinha mais o que dizer à ele. O que você gostaria que eu dissesse?
"Olhe filho, desista dessa merda, você já está à sete palmos do chão mesmo."
ou
"Esqueça essa merda de escrever lixo, você já está num rio de merda".
Era algo deprimente de se fazer com aquele pobre rapaz. Sim, eu sei...mas convenhamos, até onde ele poderia chegar?
Nós nos saudamos e fui embora daquele lugar.
Ele continuava na latrina.
Para Pachini
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