quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
O Sofá
Já passava das dez da manhã, tinha acabado de acordar. Precisava escrever uns contos para uma revista de merda. Essas de fofoca. Meu editor disse "Vamos lá, Green, é só pela grana". Concordei.
Eu estava na sala, de short azul, camiseta branca, cabelos desarrumados e barba por fazer. Eu fedia a vinho barato. Dormi no sofá noite passada por ter preguiça de tomar banho.
Fui até a escravininha e comecei a escrever meu novo conto. Meu personagem se chamava John Palmer.
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"Ao ler o jornal pela manhã, li sobre a matéria da capa, folheei algumas páginas até chegar nos classificados. Pessoas vendiam de tudo. "Vendo Igreja". "Vendo um guaxinim". "Vendo um toca discos novinho". O último me surpreendeu. "Procuro Homem para relacionamento". Dobrei o jornal em várias partes e me concentrei nos dizeres desse anúncio.
"Procuro Homem para relacionamento. Tenho 57 anos, sou viúva, sem filhos. Adoro cozinhar e passear. Não me importo por hábitos destrutivos. Quero uma companhia para dividir bons momentos." Cris Belly.
Essa mulher deve ser uma solitária. - Pensei.
"Não me importo por hábitos destrutivos", essa foi profunda. Fiquei imaginando o que ela queria dizer.
Bebidas? Drogas? Mulheres? Jogos? Na verdade, ela já era uma mulher rodada, pela idade e pela forma de dizer "Não me importo por hábitos destrutivos". Resolvi ligar para saber qualé desta mulher solitária.
Peguei o telefone, disquei o número. Tocou três vezes.
-Alô?
-Alô, Cris Belly?
-Sim, quem é?
-Meu nome é John Palmer, vi seu anúncio no jornal.
-Óh, sim.
-Me diga uma coisa Cris...
-Me chame de Belly.
-Ok, Belly. - Diz aí, está difícil encontrar um homem?
-Sim. Depois que meu marido faleceu alguns anos atrás, não quis mais sair, nem nada, mas agora eu tô precisando.
-Entendo. - Dei mais um gole. - Mas me diga Belly.
-Sim, John.
- O que significa no anúncio, "Não me importo por hábitos destrutivos? "
-Bem...é que sou bissexual...Ah.. desculpe dizer isso.
-Que nada. Somos todos iguais. Que bobagem. - Disse com ar de descompromisso.
-Sofri muito na mão do meu falecido marido.
-Mesmo? -Perguntei curioso.
-Sim, ele me traia com outras mulheres, bebia demais, jogava nos finais de semana, bebia demais, me traia com outras mulheres, etc...
-Que chato, Belly! - Como ele faleceu? - Perguntei dando uma tragada no cigarro.
-Eu o matei! Fiquei presa por cinco anos e como não conheço ninguém dessa cidade, me sinto sozinha, resolvi botar o anúncio.
-Ow...Ow... um assassinato. Forte, né? - Perguntei.
-Mas já paguei minha pena. John, você virá me visitar? Venha, tomar uma xícara de chá.
-Não posso, Belly.
-Porquê? - Belly perguntou apreensiva.
-Porque ligo de uma prisão. Estamos na hora do banho de sol, peguei um jornal para ler e encontrei seu anúncio, eu também me sinto sozinho, então resolvi ligar...
-Ah, então vou te visitar. Pode ser?
-Me visitar? - Perguntei surpreso.
-Sim. Você tem visita íntima? - Belly perguntou com um breve sorriso.
-Sim, claro. Venha amanhã as 16:00hs. Teremos uma hora só para nós. - Ri sozinho.
-Fechado, estarei aí amanhã.
-Ótimo, até amanhã.
Ao desligar o telefone, me senti como um super homem. A testosterona reinava em meu corpo..."
Ai terminar o conto, voltei para o sofá exausto. Depois mando esse pequeno conto para o editor.
Foda-se o banho! - Pensei.
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